No domingo rodei de bicicleta um pouco mais de 40 km, em pleno dia de eleição presidencial. A cidade estava bem mais agitada que o normal. Tirando uns poucos cartazes de tamanho padronizado colados aqui e ali, a eleição é muito discreta.
Excepcionalmente havia Velib disponível. Normalmente aos domingos é muito difícil encontrar alguma Velib disponível, a qualquer hora do dia. Estão todas pelas ruas. Muita gente prefere pagar a multa pelo tempo excedente do que correr o risco de devolver a bicicleta e não encontrar outra para voltar a pedalar. Infelizmente vi muitas Velib danificadas por vândalos. Cheguei a ver uma estação de 30 bicicletas com mais de 10 destruídas. Deprimente! Aliás, vandalizar qualquer bicicleta é normal por aqui. Gostaria de entender o porque.

Ontem passei o dia caminhando. Foi 12 horas de rua e um único buraco numa faixa de pedestre. Por muita sorte não cai ou torci o pé. Repito mil vezes: buraco por aqui é muito raro. Que inveja, que vergonha! Você caminha sem interferências, sustos, problemas, principalmente postes de fiação. Você consegue enxergar a arquitetura, as pessoas, os veículos em movimento; você se integra à vida da via, bairro, da cidade. Sente-se calmo; dá prazer. As pessoas são leves. Postes, como os que temos em nossas cidades, cria uma parede, uma barreira, que prejudica não só a visão, mas também gera algumas distorções sociais. Quando fiz rádio falei várias vezes sobre o assunto o que me resultou numa não muito discreta ameaça a minha integridade.

A quantidade de desabrigados e pedintes pelas ruas é grande, chega a incomodar. Tenho lembrado muito da Nova Iorque que vi em 1994, ainda em plena crise, a palestra de um dos responsáveis pelo “Tolerância Zero” que vi na Prefeitura de São Paulo, e da mesmíssima Nova Iorque que tive o imenso prazer de vivenciar no ano passado. A melhora de qualidade de vida para todos é clara. Paris parece desconhecer a experiência, ou ter outra visão do caminho para a solução de seus problemas. Francês tem uma visão própria do universo; interessante, mas muito particular. Somos todos humanos, apesar dos egos. As soluções não diferem muito onde quer que seja (incluindo no Brasil).

Como curiosidade, até patética: Hollande e Sarkosi, os dois candidatos do segundo turno, prometeram não assinar a anistia de todas as multas de trânsito de todos franceses, como é a tradição de primeiro ato praticado por todos presidentes da história da França. Quando me contaram pensei que fosse piada. Não é. Somos todos humanos.
